Ele sentou na sua poltrona preferida, que tinha o couro rachado. Estava, agora, falando sozinho. “Muitas vezes você vai ler um livro e sente que ali falta alguma coisa. Idéias, ótimas. Redação, perfeita. Erudição. Estilo. Tudo. Mas falta uma noção do pecado. Você sente que o autor reuniu todos os ingredientes mas esqueceu o principal. Quem não tem a convicção do pecado nunca fará a grande literatura. Você concorda?” “Certo”, respondi, cem por cento de acordo. Ele pareceu se dar conta da minha idade e fez um adendo. “É possível manjar branco sem a essência do coco?” “Impossível”, concordei. Manjar branco era uma das paixões dele. Anos mais tarde concluí que ele mantinha a biblioteca como um ex-alcoólatra mantém uma adega bem estocada, para ter sempre à mão a magnitude da sua renúncia. Ou um vertiginoso que escolhe viver à beira do abismo, como um desafio. Depois descobri que aquela era sua vida clandestina. Uma das suas vidas clandestinas. Eu o entendi depressa demais.
Trecho de O jardim do diabo de Luis Fernando Veríssimo.
Não acredito que eu achei essa palavra,adendo,que eu e todos pensávamos que era adengo,pronunciada pelo Sr. Perfeita Dicção - O Away de Petrópolis - Gil Brother.
Vou dormir mais leve depois dessa.
Nenhum comentário:
Postar um comentário